... a propósito de um encontro na internet, via MSN, verifiquei que nada tinha ainda aqui deixado sobre Timor. Não o Timor de agora. Mas sim do passado, dos tempos da revolução de 75/76. Por tal facto, dei comigo a pensar que um dia destes, escreveria umas linhas sobre a "ilha do crocodilo".
Ora, sem mais nem ontem, abri o "blog" e aqui estou a escrever, ao correr da tecla, nome que lhe dei quando o criei... é curioso.
Pois bem, em 1975, já o ano ia adiantado, recebi ordem de marcha para embarcar para Timor... bem, não pretendo por agora, criar aqui um tratado histórico sobre a "Guerra Civil", ou, da minha vivência detalhada, durante cerca de 16 meses, que nele vagueei... no início como parte integrante do sistema político e soberano, vigente; depois, como joguete das forças em confronto, desta feita, nas mãos da UDT/APODETI, a mando do "monstro" territorial e político da área, a Indonésia.
Fui tratado como prisioneiro de guerra daquelas organizações, durante 11 meses... e, reparem bem, estive desses 11, 10 dentro do Timor indonésio, guardado por soldados indonésios... isto desde 24 de Setembro de 1975 a 27 de Julho de 1976.
Sabem que Portugal teve relações diplomáticas com a Indonésia até 7 de Dezembro de 1975?
Sabem que esta data é a data da invasão, oficial, de Timor pela Indonésia?
(Sabem... a Indonésia invadiu Timor, logo em 24 de Setembro... diziam que eram as forças anti-comunistas da UDT/APODETI que combatiam a FRETILIN... eram tropas regulares sem distintivos e sem fardas... guerra suja)
Sabem que o presidente Gerald Ford, deixou Jacarta no dia anterior?
Ora aqui podem reflectir e tirar as vossas conclusões...
Mas, o que a mim me diz respeito e me intriga... é que eu entrei no Timor Indonésio em 24 de Setembro de 1995, e, fui entregue por um funcionário, suiço, da Cruz Vermelha Internacional, na polícia indonésia, em Atapupu, primeira aldeia a seguir à linha de fronteira... este Sr. saiu dali para ir a Jacarta, falar com o nosso embaixador... lembram-se tivemos relações com a Indonésia até 7 de Dezembro... para nos repatriar... nunca mais o vimos ou ouvimos falar. Entretanto, no estrito preceito das relações internacionais, o malogrado Ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, reuniu-se com o seu homólogo, indonésio, Adam Malik, em Roma, no dia 1 de Novembro daquele ano... antes do tal corte de relações diplomáticas coma a Indonésia...!!!
Ora, depois destes factos, apenas me pergunto... porque fiquei eu e mais 22 camaradas, na Indonésia, por tanto tempo? Ainda hoje o faço e não obtenho a resposta...
Lá regressámos, em 28 de Julho de 2006... graças à intervenção de um grande amigo de Timor e de alguns timorenses, os políticos locais da hora, que com ele estudaram em Dili, no liceu, quando era jovem, o então General Morais e Silva, Chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Com ele viajou o Tenente-Coronel Cadete, que segundo me lembro, também teria um bom relacionamento com os políticos locais.
Reporto-me agora àquela data, por lembrança, para se verificar como se vivia na época no país, contando aqui, a situação caricata, de ter regressado, a voar contra-natura, pelos EUA, porque ninguém fiava o combustível para a aeronave, a não ser aquele país... quaisquer taxas e reabastecimento, eram pagos na hora. Em dólares. Recordo que quando fui voei para oriente, tendo pousado em Carachi e Jacarta.
Volto agora atrás, novamente. Para referir que durante a detenção, forçada, já que nós não tínhamos fronteira próxima, que pudéssemos atravessar... vivíamos num antigo presbitério, holandês e abandonado, havia pouco tempo, pelo prior, que se acolheu em novas instalações, no centro da aldeia. Era tudo em madeira, em fim de vida, desde a igreja, até à antiga casa do cura. Havia uma cerca que contornava o dito presbitério, que para além da igreja e da habitação, tinha no seu interior um cemitério e a "quinta", onde o cura em tempos faria a plantação dos seus legumes, com diversas árvores de fruto, entre as quais se contavam as bananeiras e papaieiras.
Tudo isto, para dizer que aqui resultaram vivências de todas as espécies e feitios, que geraram os mais díspares sentimentos, em cada um, dos 23, durante a longa permanência.
Houve incompatibilidades e desinteligências. Houve azedume, inveja, rancor, "traiçõeszinhas"...
Mas... também houve, como reverso, entreajuda, amparo, apoio moral e espiritual, que se saldou, já no final, num grande espírito de corpo e de solidariedade, entre todos, que permitiu que chegássemos ao ponto de partida, em Lisboa, são e salvos.
Durante muitos anos, cada um seguiu a sua vida, nunca nos tendo juntado colectivamente.
Mais tarde, já nos anos noventa, por iniciativa de dois ou três "carolas", tocou a reunir... e a maioria, respondeu presente...
Como se veio a constatar, a partir do primeiro encontro, apenas faltavam os que na provação, mais se auto-excluíram ou tentaram "ghetizar-se", e, aqueles para quem a vida foi madrasta, e, que infelizmente se finaram, entretanto, e, que sempre recordamos com saudade.
Nestes encontros, que passaram a ser mais ou menos regulares, já em situação normalizada de vida, passámos a conhecer-nos melhor e a aprofundar amizades, que para concluir, esta prosa, para mim, para além dos amigos chegados da infância, são aqueles os amigos naturais e mais chegados, que ficaram, apesar de ter entretanto percorrido e trilhado vários caminhos, em todas as direcções, com contactos profissionais e sociais, intensos, e no final de mais um ciclo de vida, o do trabalho, que chegou ao fim.
À laia de conclusão e de desabafo, a vida nos tempos que correm, já não é a que visualizávamos, na nossa meninice... tudo se alterou.
Passámos da era da Tv para a da Internet, tendo-se alterado o modo e a filosofia de vida, radicalmente.
"A razão sobrepôs-se ao coração."



