Iniciação à gestão, aos 10 anos de idade...
Era uma vez…
… 3 rapazitos, que montados nas suas bicicletas, se dirigiram, já num dia de férias de Páscoa e em franca época primaveril, para a área do Colégio, que frequentavam, para usufruir aí, do espaço e da calmaria, que o local proporcionava...
Passados, dois, três dias, um deles, foi acordado pela mãezita, que, com cara de querer dar poucos afagos, adjectivava a sua mímica, com palavras pouco abonatórias, para quem as ouvia, fazendo-o despertar assarapantado e com estranheza pela algaraviada, contrariamente ao habitual…
Trazia na sua mão, um papel. Era uma intimação do Sr. Comandante da Guarda Republicana, que mandava apresentar o dito aluno, no seu quartel, para ser ouvido como arguido... Não dizia qual ofensa ou o acto praticado(?)...
No dia aprazado, lá foi o aluno de 10 anitos... a caminho do Posto, para ser ouvido e “julgado”, por algo que desconhecia...
Enquanto esperava, pelo “Implacável Cabo Comandante do Posto”, que tinha fama de ser intransigente, e, de ter poucos amigos, imaginava como seriam as "masmorras" e qual o motivo que o ali levara… (tudo isto entre deambulações de fardas e botas cardadas, que entravam e saíam num rodopio, fazendo-o sentir-se, num campo de urtigas, e, não de amoras silvestres, tal e qual como o João perante o "gigante", logo que subiu o feijoeiro).
Depois de uma boa meia hora de espera, um agente mandou-o entrar para um gabinete, singelo e austero, com apenas uma secretária, uma cadeira, um cofre cinzento, a um canto, e, mais um retrato do Sr. Presidente, de então.
Sentado na cadeira e com cara de poucos amigos, o Sr. Cabo Comandante, levantou o olhar e com voz grave e condizente, disse:
- Malandros mal-formados… como podem invadir a propriedade privada e destruir as árvores de fruto alheias, provocando-lhe danos irreparáveis e ficarem impunes?!…
- Quem são os outros dois que no dia (x) te acompanhavam e, que no colégio, destruíram as cerejeiras que lá se encontravam?…
Ficou incrédulo e quedo. Ter-se-ia enterrado pelo cimento abaixo, se fosse possível transformar-se em broca…
E o Cabo venerando, continuou:
- Não vale a pena dizeres nada, porque já sei quem são… A pedido da Vossa Directora, cada um irá desembolsar 25$000 reis, para pagamento dos estragos. Se vos volto cá a apanhar, pelo mesmo motivo, não saireis daqui sem uns açoites e uma passagem pelo calaboiço.
- Vai-te. Amanhã, bem cedo, não te esqueças de me fazer entrega dos 25$000 reis, para eu os poder dar à vossa Directora.
Dali, saiu o petiz, sem palavra ter proferido, com o rabo entre as pernas, conforme o ditado popular, a meditar na razão pela qual, naquele dia, o mundo resolver dar uma volta e cair-lhe nos costados. Dirigiu-se para o local habitual de reunião, no jardim público, da vila, para contar e tentar saber a razão daquele desiderato…
Como era habitual, lá se encontrava a galfarragem do costume…
Começou por contar, como tinha abandonado o reino de Morfeu e de todas as contrarieadades, a que foi submetido durante aquele dia.
O problema maior, a resolver, era como iria arranjar os milhares de “reis”, no total de 25.000, para pagar no outro dia, pela manhã, como lhe foi imposto pelo “Senhor Cabo do Decalitro”…
Quanto à explicação, sobre o motivo da sua passagem pelo “CALABOIÇOl”, veio de seguida, pela voz de um dos presentes, que já tinha passado pela mesma situação, e, que recordou que no tal dia (x), enquanto deambulavam pelo recreio, um deles - ainda hoje, não se sabe qual - terá ido a uma pequena cerejeira, que iniciava ali o seu ciclo de vida, agarrada à pedra da parede, sob a janela da sala do 2º Ano, onde cresciam 2 cerejas, raquíticas, ainda num matiz variável, entre a cor exterior e interior da melancia, que resolveu, logo ali prová-las, para que soubesse e pudesse informar, a proprietária, "Directora", da valia ou não, de deixá-la crescer, consoante fosse a sua qualidade. Só não transmitiu, os adjectivos a aplicar, porque não havia vivalma na grande casa, agora abandonada, durante as férias... (pelo menos assim parecia…).
Nenhum deles ficou com a dívida por saldar…
E, foi, por tal facto, que três rapazitos, desde cedo, tomaram contacto com a "usura", o "poder", o limiar da “marginalidade” e com a "gestão de grandes pomares".
Mas, pelo que consta, serviu-lhes de lição, pois que, já em tempo de “EUROS”, (como vão longe os tempos dos MIL REIS...), nada consta, nos seus registos criminais, tendo-se tornado pacatos cidadãos, laboriosos e empreendedores, cada um na sua actividade, cultivando os princípios da ética, respeito e sociedade, que foi ali, naquele mesmo colégio, que desde cedo, aprenderam a cultivar.
Toda esta "estória", se deve à inflexibilidade da "Directora" e do “Poder Policial”, contra os “Adamastores” e contra a vilanagem, daquela pequena vila, personificada naquelas três pequenas criaturas, gentes de palmo e meio, avassaladores e usurpadores, da propriedade alheia…
Nada consta sobre as represálias e açoites havidos no "LAR"...
... a memória tratou de os fazer cair no esquecimento…
(texto de António Carlos Marques Cabral - 8 de Fevereiro de 2004)